Depois

Posted in texto on December 24th, 2008 by Rodrigo Zeba

O sol amanhecendo iluminava a metade inferior da cama. A janela semi-aberta deixava entrar um vento frio e ameno. A noite em claro estava conseguindo vencê-lo e seus olhos tentavam cerrar-se, mas ele resistia. Ela estava deitada, de lado, aninhada em seus braços, ainda um pouco ofegante, os corpos suados. A manhã nascendo iluminava a porção inferior das suas coxas e pernas nuas. Ele olhou para os seus pés cruzados e sorriu com ternura. A metade superior, também despida, estava numa delicada sombra matinal, com as costas coladas ao seu peito. Admirou por um longo tempo aquele corpo longilíneo e delgado, que o trazia pra perto com um braço estirado para trás, segurando em sua coxa. Com a outra mão, ela fazia um suave carinho em seu braço esquerdo. Ele passou-lhe o braço pela cintura, puxando-a mais para perto de si, e começou a roça-lhe o ventre, quase sem tocá-lo, fazendo-a virar, com um suspiro quase inaudível, e seus cabelos escuros, curtos, presos num pequeno rabo de cavalo roçaram seu nariz e o fizeram sorrir. Ela confundiu-se com o sorriso e juntos seus lábios aos dele, que beijou-a de volta pousando a mão suavemente sobre a face esquerda daquele rosto que mal conhecia. Ela virou-se, e eles se envolveram num abraço terno, as pernas entrelaçadas, os corpos colados, com o suor já quase seco do Antes. Ela encostou a cabeça em seu ombro, cerrou os olhos, buscando o sono. Esperou-a dormir, levantou-se e dirigiu-se à janela, guiado pelo sol, e olhou a manha já nascida. Olhou os carros, as pessoas acordando e sentiu a dor da saudade pesar-lhe o peito. Tentou não pensar na sua Morte há um mês e desviou o pensamento para sua partida iminente para o exílio. Sabia que não poderia voltar, não haveria anistia, não haveria perdão. A distância e o definitivo o acalmaram um pouco e ele teve a certeza de que, embora não pudesse deixar de amar a Morte( ninguém escapa da morte), iria aprender a conviver com isso. Um suspiro fundo trouxe de volta o sono e a tontura etílica. Lentamente voltou-se para a cama, deitou-se ao lado daquele corpo desconhecido, virou-se de lado e dormiu um sono sem sonhos.

Oásis

Posted in texto on November 12th, 2008 by Rodrigo Zeba

    O sol do meio dia queimava sua nuca. Sempre era meio dia. Não sabia exatamente há quanto tempo caminhava, mas a paisagem nunca havia se modificado. Pra qualquer lado que ele olhasse, tudo era uma planície árida, e o solo rachado fervia sob seus pés. Nem uma pedra, nem uma elevação, nem uma vegetação para lhe fazer sombra. Não se lembrava de como havia parado ali, não se lembrava de como entrara naquele deserto e o sol nunca saía do meio do céu. Sua boca seca ardia e minava pus das feridas abertas, e ele o engolia com asco, tentando se alimentar. Sua língua estava inchada, rachada como o solo, e cada passo que dava deixava no chão pedaços de pele dos seus pés, que iam se desfazendo no calor daquele inferno e o desespero da dor de andar o dilacerava. Mas ele não parava. O ar era seco, e penetrava nas suas narinas como fogo, e queimava sua laringe e cozinhava seus pulmões aos poucos. Pedaços de pele e carne borbulhavam e cozinhavam e caiam no caminho e ele os devorava com fúria tentando saciar a fome ou morrer de asco. Parte dos seus ossos já estava à mostra e seu corpo exalava um cheiro de podridão e desespero misturado aos dos excrementos da sua própria carne. No início, achou que acabaria morrendo de sede, fome, insolação ou desespero. Mas ele não teve essa benção. Seu corpo continuava, inexplicavelmente, funcionando. Seguia, sem rumo, a esmo, pela vastidão do deserto que o cercava. Súbito, muito ao longe, avistou o que parecia ser um casebre, e se ainda lhe restasse um coração, teria tido esperança. Arrastou seu corpo putrefato e nojento em direção à construção. Era realmente um casebre pequeno, ou o que sobrara dele. A madeira rota e cheia de buracos, a poeira dando-lhe uma cor avermelhada de sangue sob o sol de meio dia. Uma camada de poeira incrustada no vidro das janelas o impediam de ver qualquer coisa lá dentro. Mas havia um teto. Bateu na porta, sem receber resposta. Começou a empurrá-la. A porta não cedeu aos seus esforços e ele começou a esmurrá-la, ou tentar, reunindo o resto de forças que tinha até que, finalmente, ouviu um estalo e ela entreabriu. Empurrou-a até o fim e olhou. Vazio. Poeira e desolação. Quatro paredes mal erguidas no meio do infinito devastado. Apenas inúmeros pequenos montes de um pó acinzentado se amontoavam pelo chão. Ele arrastou-se para dentro e ouviu a porta fechar-se com um estrondo atrás dele. Virou-se e tentou, em vão, abrí-la. Arrastou-se para um canto e sentou, esperando o fim. Após um longo e indefinido tempo, uma espera insuportável pela morte, os cabelos grisalhos, o abandono e a solidão gritando em seus ouvidos, alguém bateu na porta. Ele levantou, pela primeira vez em todo esse tempo, assustado. Começou a caminhar em direção à porta, seu corpo estremeceu, sua mente esfacelou, a pele tremia em desespero e ele implodiu num montículo de pó acinzentado.

    …aos seus esforços e ele começou a esmurrá-la, ou tentar, reunindo o resto de forças que tinha até que, finalmente, ouviu um estalo e ela entreabriu.

Pregos

Posted in texto on November 7th, 2008 by Rodrigo Zeba

Ele estava deitado, de costas, olhando para o céu. O dia começava a morrer. O Sol se inclinava para o poente, e ele estava lá, jazendo, num chão de terra batida, recheado por rochas. Sua cabeça ardia de uma forma a não se deixar perder. Tudo estava muito estranho. Ele enxergava as cores, luzes e amores de forma diferente… mais vivas. Seu peito doía e suas costas, flageladas, dilaceradas, sentiam a mágoa da madeira em contado com as feridas em carne viva, começando a apodrecer, em suas espaldas. O Sol caminhava para o seu ocaso e ele sentia que o seu destino era semelhante. Baixou um pouco a cabeça na direção dos pés e A viu. Ela caminhava ao seu encontro, linda como nenhum ser humano ousou ser algum dia, os cabelos loiros esvoaçando ao vento, os olhos, castanhos, cheios de vida refletindo a beleza do por do Sol que se aproximava, um sorriso que anunciava à humanidade que um dia ela (a humanidade) seria feliz, de fato. A luz caia sobre seu rosto e ele pode apreciar o espetáculo mais maravilhoso já testemunhado por um mortal: A criatura mais linda que já pisou este planeta e que jamais pisará. Ele sentiu a ternura invadir seu peito ao vislumbrar aquela criatura, tão perfeita, e começou, naquele instante, a crer em Deus. Sua pele branca e macia (ele a sentia de longe) refletia a luz do sol, projetando em seu olhar a perfeição imperfeita Dela. Seu peito se exaltou e a dor nas costa e na cabeça sumiu, como que por encanto. Um amor maior que os limites físicos do seu corpo fizeram seu corpo tremer, num frêmito. Ela se aproximou, candidamente, tomou-lhe a cabeça nos braços, e sorriu-lhe. Seus lábios se aproximaram e Ela deu o único beijo que ele dera na vida, apesar de todos os outros lábios que o haviam tocado. Seu corpo se encheu de calor e vida, e ele sentiu que seu destino poderia ser diferente, apesar de tudo. Ela afastou-se e, delicadamente, ajeitou seus cabelos longos sob a coroa de espinhos. Agarrou o prego caído no solo, mirou seu pulso esquerdo e, com uma martelada, o cravou até a cabeça. A dor e o susto o fizeram contorcer-se. Seu braço retesou, tentando fugir daquilo que o magoava, fazendo o prego dilacerar mais a sua carne destruída. Suas mãos dobraram sob si mesmas, os dedos arqueados, acompanhando o movimento do tendão esfacelado. O ar lhe fugia e ele ofegava, tentando encontrá-lo sem muito sucesso. Olhou para Ela assustado, sem entender o que estava acontecendo, buscando respostas e um alívio para a dor. Ela apenas lhe sorriu de volta, um sorriso feliz e tranquilo, sorriso de amor, fazendo um carinho no seu rosto. O segundo prego resvalou o osso do pulso direito e virou para dentro da carne, rasgando-a. Ela, gentilmente, o ajeitou e deu mais uma, duas, três marteladas até atravessar a pele e cravá-lo na madeira. Ele urrava de dor e desespero, seu corpo reagindo, contraindo todos os músculos, tentando fugir. Sua cabeça, instintivamente, levantou-se buscando mais ar e alívio para a dor. Sem sequer olhar em sua direção, Ela bateu-lhe na cabeça com o cabo do martelo, com força. Os espinhos cravaram seu crânio, fazendo seu cérebro latejar. A cabeça cedeu e com o impacto na madeira, a coroa penetrou ainda mais em seu ser. Com um sorriso de ternura inimaginável, levantou-se e andou em direção aos pés. Os destroçou a marteladas, colocou um sobre o outro e completou a crucificação, de um só golpe. Ele não conseguiu mais gritar. Havia perdido as últimas forças. Apenas gemeu quando o prego trespassou seus pés indo fixar-se no madeiro. O sangue das suas chagas escorria pela sua pele e gotejava, lentamente sobre o chão de terra, formando uma lama de dor e lamentação. Sozinha, Ela içou a cruz, encaixando-a num buraco no chão. Sentou-se numa pedra, serviu-se de vinho e admirou o espetáculo. A multidão aplaudia e assoviava. Ele estava ali, nu, pregado, pingando sangue, se erguendo pelo apoio dos pregos para tentar respirar. A dor dos pés esfacelados era insuportável, mas ele não conseguia desmaiar. Com esforço, girou a cabeça e olhou, para baixo, na direção dela. Um olhar misto de abandono, dor, estupefação e amor. Ela retribuiu-lhe o olhar aconchegante e feliz e ergueu a taça de vinho em um brinde. Ele sentiu um calor imenso invadir-lhe o corpo em resposta àquele olha. Seus esfíncteres se abriram e ao suor que abundava seu corpo veio juntar-se uma mistura de merda e mijo, escorrendo pelas pernas e misturando-se à poça de sangue e poeira que se formava abaixo. A multidão aplaudia em regozijo. Ele perdeu as últimas forças, deixou a cabeça pender sobre o peito e fechou os olhos. Uma dor aguda o despertou, uma dor que o fez flexionar todos os músculos moribundos de seu corpo. Assustado, olhou para baixo e viu a espada cravada em seu flanco direito, manejada por Ela, que o olhou com um misto de pena e impaciência. Olhou pra seus pés e viu abutres se banqueteando em sua carne, arrancando nacos e degustando com prazer a sua dor. Sua vida se esvaia, seu peito ardia buscando ar e amor. Ela empurrou a espada mais fundo, atravessando o tórax e dilacerando seu coração, ele sentiu um espasmo de terror e vomitou sobre o peito o sangue que lhe restava no corpo e sua vida esvaiu-se em suas fezes.

Analogia Real

Posted in Epifania, texto on November 4th, 2008 by Rodrigo Zeba

Ele chegou em casa cabisbaixo, triste. Destruído pela vida e pelas criaturas. Tirou a camisa do trabalho e abriu o armário. Notou um velho cinto, quase se desfazendo de tão podre, junto às suas roupas. Pegou o cinto e jogou no lixo. Ao voltar para o armário, um outro cinto, ainda mais velho e se desfazendo, veio ocupar o lugar do outro. Ele olhou, intrigado. Notou camisas velhas embaixo das novas, camisa que não eram usada há anos e só estavam ali acumlando poeira e traças. Inúteis peças de vestuário numa confusão e mistura de coisas antigas, passadas e putrefatas e elementos novo e completamente funcionais. Decidiu jogar as camisas que não prestavam fora. Separou-as e as jogou no chão da área. De volta à porta do armário, uma série de pares de calça furadas e mofadas quase saltou-lhe aos olhos. Peças igualmente deprimentes, que envenenavam o ambiente e a possibilidade de qualquer harmonia reinar por ali. Retirou-as do armário e foi jogando ao chão. Súbito, uma euforia que veio de algum canto da sua alma, empoeirado e misturado com coisas putrefatas e deprimentes, conseguiu ultrapassar o mar de sujeira e detritos da sua mente e o alcançou. Ele sentiu um frêmito estranho, algo que estava desacostumado a sentir. Abriu de par em par os armários e começou a jogar tudo ao chão. Tudo de pobre e antigo que estivesse à sua vista, era jogado ao chão. Não com raiva. Com emoção e extase. Não conseguia parar. Desfaziá-se daquele lixo com uma alegria imensa. Notou que ao desfazer-se dos seus trapos imundos, sua alma ia ficando mais leve. Ele estava também jogando fora tudo que tinha de velho, podre, viciado, putrefato, destrutivo, todos os comportamentos moribundos e peçonhentos, toda uma sorte de traumas e pesadelos que ele havia, também, guardado na sua alma, sem jogar nada fora, deixando aquilo contaminar seu ser, fazê-lo destrui a si mesmo e seus sonhos, deixando sua alma velha, podre e pestilente. Uma lufada de ar renovado entrava em seu espírito e ele o sorvia com prazer e felicidade. Passou para o velho rack, cheio de tralhas. Retirou tudo dele, o desarmou e jogou fora. Arrumou os livros e filmes, candidamente, sob o móvel novo. Livrou-se das bugingangas e revistas acumulades sob a cama e na mesa de centro. Sua euforia aumentava a cada segundo, embriagando sua mente, o deixando bem, feliz e tranquilo. Deixando a luz penetrar em cada canto daquela criatura que acumulou pesadelos, ao invés de descartá-los. A única coisa que maculava a sua epifania, era a ausência… O tempo perdido, e nunca mais recuperado. ELA. Ela não estava ali pra ver a transformação que ajudou a engedrar. Ela havia se ido, e ele não conseguia mais nem despetar uma lembrança qualquer em sua alma. De quem ele era, ou o que haviam vivido. Tarde demais, ele imaginou. Por anos, fez questão de mostrar a todos cada parte destrutiva dessa coleção de horrores, como um tuour macabro e egoísta, que guardava em seu cérebro, principalmente a Ela. A criatura que ele mais amou (e ama) neste planeta. Ele entendia agora. Entendeu tudo. Entendeu o que fazia e porque. Entendeu os erros que cometeu que a levaram a não dedicar um segundo qualquer do seu dia para ele. Ele não gosta de repetir erros, e não os repetirá. Ele sentia mais pena do que tristeza. Pena pelo tempo perdido, pela história interrompida, pela ausência do futuro sonhado, pena por não poder compartilhar com ela a casa e a alma renovadas, puras, limpas e agradáveis. Leves. Gostaria de poder gritar, para tentar se fazer ouvir. Mas sabe que não será ouvido. Então continua a limpeza, se purificando, deixando tudo de ruim ir embora, sentindo que, mesmo em Sua ausência, o futuro lhe trará coisas boas. Pessoas boas. A saudade ainda doía com força em seu peito, em sua alma. A vontade de estar junto e a certeza de que, desta vez, seria tudo diferente. Ele estava livre dele mesmo. Se despe e entra no banho. Gelado, quase à meia noite. Terminando de lavar qualquer impureza que possa ter ficado, deixando tudo escorrer pelo ralo, os cabelos molhados, longos, caídos sobre os ombros e as costas, os últimos fragmentos de sujeira escapando do seu ser e ele expulsando os que tentam se agarrar. Acabou, pensa ele. Não há mais lugar aqui. Senta e ascende um cigarro. O monitor lhe mostra um e-mail novo, vindo de um bom passado, uma quase irmã. Em uma resposta a um e-mail seu, cheio de poeiras e podridão, ela lhe diz: “mesmo sem ter competência(…)para arrancar de você aquilo que eu sei que existe mas que a gente nunca sabe onde vc botou, se está na gaveta da cozinha, na mala do carro ou dentro de uma caixa empoirada.”. Ele ri, gostosamente, da sintonia. Agora ele sabe. Agora, será fácil de achar. Ninguém poderia arrancar, ninguém além dele mesmo.
E agora, é o que todos verão. Ele sabe que ainda virão momentos difíceis, momentos de saudade e de ser esquecido. Mas tudo irá. Serve-se de uma taça de vinho, coloca uma música não-qualquer e relaxa no sofá. Hoje, ele dormirá de janelas abertas.

Ciclo

Posted in texto on October 30th, 2008 by Rodrigo Zeba

Publicado originalmente em 22 de abril de 2008

Deitado no sofá, ele solta uma baforada. A sala quase às escuras. A luz de um monitor é a única coisa que o impede de ficar cego. “Velhos hábitos” ele pensa olhando o computador ligado. Agora que o mundo havia acabado, nada daquilo fazia muito sentido. “Quase duas semanas atrás”. De lá para cá, ele havia vagado como um fantasma saído de um limbo esquecido qualquer. Nâo sentia cheiro, não via cor, não via rostos. Tudo era meio vago e translúcido, como uma quimera, um devaneio qualquer da mente de um louco largado num canto sujo e esquecido do manicômio. Ele, que já vivera muitas vidas, já presenciara O Fim mais vezes do que merecia, sabia que era temporário. Mas a dor da morte, a dor lancinante da morte e a agonia de permanecer vivo após ela eram algo a que ele nunca iria se acostumar. Ao contrário, cada vez que era atirado, à revelia, ao esquecimento, a dor parecia voltar mais revigorada, mais viva, mais pulsante. Uma dor viva que se alimentava da carne e da mente fraca dos espectros que são condenados a errar pelo limbo, que são condenados a ver, mas que caem no oblívio e não são vistos, sentidos, lembrados ou tocados. Por vezes, nesta última semana e meia, algumas pessoas, notadamente as fêmeas, o haviam visto, através de um umbral qualquer, uma fresta, um rasgo entre os dois mundos. Todos os dias esse véu se rasgava um pouco. No vinho sábado à noite, andando a esmo pelas ruas, todos os dias à tarde. Elas o olharam com interesse, um interesse de fêmea olhando um macho. Animal. Ele as olhava de volta e as via ora como uma multidão de corpos sem rostos, sem vida, sem calor ora com um único rosto, uma única vida, um único calor, que não lhe pertenciam mais, que havia ficado viva, que havia, como os outros, o esquecido e seu cérebro apagado dos registros, para quem ele não era sequer uma lembrança ruim que surgia de vez em quando. Era nada. Oblivio. Ele sabia que era uma questão de tempo para notá-las de volta e que este tempo estava chegando. E também temia o que viria. Ele voltaria, mais uma vez, à sua detestável vida de beber, foder e esquecer. Detestável. Primeiro por desespero, depois por um prazer patético e pueril e, finalemente, por inércia. Voltava porque tinha de voltar. Um homem que já viveu muitas vidas, cansa de brigar com o Destino e simplesmente se deixar levar, porque sabe que o fim é o mesmo. E sempre, quando o fim se aproximar, mais uma vez, ele abandonará essa vida detestável e viverá a plenitude que o satisfaz, com o sentimento transbordante que eleva o seu ser às mais altas esferas da felicidade e será completo, terno, será um Homem inteiro mais uma vez. Um pequeno instante, breve e infinitesimal. E então, quando houver esquecido da morte, da vida detestável, do limbo do desespero, quando a dor for apenas uma lembrança vaga nas mais fundas entranhas do seu ser, então a Vida o olhará um pouco mais detidamente e pensará, com um certo desprezo e um grande nojo, quanto viver foi desperdiçado com aquele homem marcado pelo fado, vaticinado pelos deuses e irá, mais uma vez, virar-lhe as costas e desaparecer, deixando-lhe morto e esquecido. E o Mundo acabará outra vez.