Ele estava deitado, de costas, olhando para o céu. O dia começava a morrer. O Sol se inclinava para o poente, e ele estava lá, jazendo, num chão de terra batida, recheado por rochas. Sua cabeça ardia de uma forma a não se deixar perder. Tudo estava muito estranho. Ele enxergava as cores, luzes e amores de forma diferente… mais vivas. Seu peito doía e suas costas, flageladas, dilaceradas, sentiam a mágoa da madeira em contado com as feridas em carne viva, começando a apodrecer, em suas espaldas. O Sol caminhava para o seu ocaso e ele sentia que o seu destino era semelhante. Baixou um pouco a cabeça na direção dos pés e A viu. Ela caminhava ao seu encontro, linda como nenhum ser humano ousou ser algum dia, os cabelos loiros esvoaçando ao vento, os olhos, castanhos, cheios de vida refletindo a beleza do por do Sol que se aproximava, um sorriso que anunciava à humanidade que um dia ela (a humanidade) seria feliz, de fato. A luz caia sobre seu rosto e ele pode apreciar o espetáculo mais maravilhoso já testemunhado por um mortal: A criatura mais linda que já pisou este planeta e que jamais pisará. Ele sentiu a ternura invadir seu peito ao vislumbrar aquela criatura, tão perfeita, e começou, naquele instante, a crer em Deus. Sua pele branca e macia (ele a sentia de longe) refletia a luz do sol, projetando em seu olhar a perfeição imperfeita Dela. Seu peito se exaltou e a dor nas costa e na cabeça sumiu, como que por encanto. Um amor maior que os limites físicos do seu corpo fizeram seu corpo tremer, num frêmito. Ela se aproximou, candidamente, tomou-lhe a cabeça nos braços, e sorriu-lhe. Seus lábios se aproximaram e Ela deu o único beijo que ele dera na vida, apesar de todos os outros lábios que o haviam tocado. Seu corpo se encheu de calor e vida, e ele sentiu que seu destino poderia ser diferente, apesar de tudo. Ela afastou-se e, delicadamente, ajeitou seus cabelos longos sob a coroa de espinhos. Agarrou o prego caído no solo, mirou seu pulso esquerdo e, com uma martelada, o cravou até a cabeça. A dor e o susto o fizeram contorcer-se. Seu braço retesou, tentando fugir daquilo que o magoava, fazendo o prego dilacerar mais a sua carne destruída. Suas mãos dobraram sob si mesmas, os dedos arqueados, acompanhando o movimento do tendão esfacelado. O ar lhe fugia e ele ofegava, tentando encontrá-lo sem muito sucesso. Olhou para Ela assustado, sem entender o que estava acontecendo, buscando respostas e um alívio para a dor. Ela apenas lhe sorriu de volta, um sorriso feliz e tranquilo, sorriso de amor, fazendo um carinho no seu rosto. O segundo prego resvalou o osso do pulso direito e virou para dentro da carne, rasgando-a. Ela, gentilmente, o ajeitou e deu mais uma, duas, três marteladas até atravessar a pele e cravá-lo na madeira. Ele urrava de dor e desespero, seu corpo reagindo, contraindo todos os músculos, tentando fugir. Sua cabeça, instintivamente, levantou-se buscando mais ar e alívio para a dor. Sem sequer olhar em sua direção, Ela bateu-lhe na cabeça com o cabo do martelo, com força. Os espinhos cravaram seu crânio, fazendo seu cérebro latejar. A cabeça cedeu e com o impacto na madeira, a coroa penetrou ainda mais em seu ser. Com um sorriso de ternura inimaginável, levantou-se e andou em direção aos pés. Os destroçou a marteladas, colocou um sobre o outro e completou a crucificação, de um só golpe. Ele não conseguiu mais gritar. Havia perdido as últimas forças. Apenas gemeu quando o prego trespassou seus pés indo fixar-se no madeiro. O sangue das suas chagas escorria pela sua pele e gotejava, lentamente sobre o chão de terra, formando uma lama de dor e lamentação. Sozinha, Ela içou a cruz, encaixando-a num buraco no chão. Sentou-se numa pedra, serviu-se de vinho e admirou o espetáculo. A multidão aplaudia e assoviava. Ele estava ali, nu, pregado, pingando sangue, se erguendo pelo apoio dos pregos para tentar respirar. A dor dos pés esfacelados era insuportável, mas ele não conseguia desmaiar. Com esforço, girou a cabeça e olhou, para baixo, na direção dela. Um olhar misto de abandono, dor, estupefação e amor. Ela retribuiu-lhe o olhar aconchegante e feliz e ergueu a taça de vinho em um brinde. Ele sentiu um calor imenso invadir-lhe o corpo em resposta àquele olha. Seus esfíncteres se abriram e ao suor que abundava seu corpo veio juntar-se uma mistura de merda e mijo, escorrendo pelas pernas e misturando-se à poça de sangue e poeira que se formava abaixo. A multidão aplaudia em regozijo. Ele perdeu as últimas forças, deixou a cabeça pender sobre o peito e fechou os olhos. Uma dor aguda o despertou, uma dor que o fez flexionar todos os músculos moribundos de seu corpo. Assustado, olhou para baixo e viu a espada cravada em seu flanco direito, manejada por Ela, que o olhou com um misto de pena e impaciência. Olhou pra seus pés e viu abutres se banqueteando em sua carne, arrancando nacos e degustando com prazer a sua dor. Sua vida se esvaia, seu peito ardia buscando ar e amor. Ela empurrou a espada mais fundo, atravessando o tórax e dilacerando seu coração, ele sentiu um espasmo de terror e vomitou sobre o peito o sangue que lhe restava no corpo e sua vida esvaiu-se em suas fezes.